Meu filho só come assistindo no celular. Isso acontece na sua casa?

Publicado por Ivana Gonçalves em 21 de julho de 2026

“Se eu tirar o celular, meu filho não come.”

Essa frase já fez parte da rotina de muitas famílias que atendo no consultório.

E, se ela faz parte da sua também, quero começar dizendo uma coisa importante:

Você não está sozinho.

Na maioria das vezes, o celular não entrou na refeição porque os pais queriam.

Ele entrou porque a rotina ficou cansativa.

Porque a criança demorava para comer.

Porque havia choro.

Porque existiam conflitos.

E, um dia, alguém percebeu que, com uma tela na frente, a refeição finalmente acontecia.

O problema é que aquilo que começou como uma solução acaba se transformando em um hábito.

Por que algumas crianças e adolescentes passam a depender do celular para comer?

Como nutricionista comportamental em Sorocaba, essa é uma situação que observo com frequência.

O cérebro da criança passa a associar dois comportamentos:

  • comer;
  • assistir.

Depois de algum tempo, ela sente dificuldade para fazer uma coisa sem a outra.

Isso não significa que o celular “causou” um problema alimentar.

Mas significa que a refeição deixou de ser um momento em que a criança presta atenção na comida, na fome e na própria família.


O maior problema não é o celular

Quando os pais chegam ao consultório, quase sempre acreditam que o problema é a tela.

Mas, na maioria das vezes, eu vejo outra coisa.

O problema é que a família perdeu um dos poucos momentos do dia em que realmente conversa.

É durante uma refeição que uma criança conta algo da escola.

Que um adolescente fala sobre uma amizade.

Que os pais conseguem perceber mudanças no comportamento dos filhos.

Quando cada um está olhando para uma tela, essas conversas deixam de acontecer.

E esse é um impacto que muitas famílias só percebem quando já faz parte da rotina.


Comer assistindo ao celular faz mal?

Não existe uma resposta simples de “sim” ou “não”.

Uma refeição ocasional em frente à televisão ou ao celular não costuma determinar como uma criança vai se relacionar com a comida.

O que merece atenção é quando todas as refeições passam a depender da tela.

Nesses casos, a criança pode ter mais dificuldade para perceber sinais de fome e saciedade e a refeição deixa de ser um momento de interação familiar.


O erro que vejo muitos pais cometerem

Quando percebem que o celular virou rotina, muitos pais tentam resolver de uma vez.

Retiram a tela de todas as refeições.

E a consequência costuma ser previsível:

Mais choro.

Mais discussões.

Mais resistência.

Mudanças radicais raramente funcionam porque o hábito já foi construído.


A estratégia que costumo orientar no consultório

Em vez de mudar tudo, escolha apenas uma refeição.

Pode ser o jantar.

Pode ser o almoço de domingo.

O importante é que seja um momento possível de manter.

Façam um combinado.

Durante aquela refeição:

  • sem celular;
  • sem televisão;
  • sem cobranças sobre quantidade de comida.

O objetivo não é fazer a criança comer mais.

É fazer a família voltar a estar presente.


Crianças com TDAH também podem se beneficiar dessa mudança?

Sim.

Nas famílias de crianças e adolescentes com TDAH, a previsibilidade e a construção gradual de novos hábitos costumam trazer melhores resultados do que regras impostas de forma repentina.

Cada caso deve ser avaliado individualmente, mas pequenas mudanças consistentes costumam ser mais sustentáveis do que transformações bruscas.


Quando procurar uma nutricionista comportamental?

Se as refeições se tornaram motivo de estresse, se seu filho só aceita comer usando telas ou se existem dificuldades como seletividade alimentar, obesidade infantil, TDAH ou preocupações com o comportamento alimentar, procurar orientação especializada pode fazer diferença.

O acompanhamento com uma nutricionista comportamental ajuda a construir estratégias adaptadas à realidade da família, respeitando a rotina, a idade da criança e os objetivos de cada casa.


Sobre a autora

Ivana Gonçalves é nutricionista comportamental em Sorocaba, com atuação voltada para crianças, adolescentes e famílias. Atende casos de seletividade alimentar, TDAH, obesidade infantil, transtornos alimentares e comportamento alimentar, ajudando famílias a desenvolver uma relação mais saudável com a comida por meio de estratégias práticas e individualizadas.https://nutricionistaivana.com.br/

Veja também outros artigos:

O que é a nutrição comportamental e o que ela pode fazer por você?

A relação que as pessoas têm com a comida vem sendo cada vez mais discutida e analisada. O sentimento de culpa e a dificuldade em perder ou manter o peso, são apenas algumas...

Ver mais

TDAH E ALIMENTAÇÃO INFANTIL: RESPOSTAS E ALTERNATIVAS PARA PAIS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Guia prático baseado em evidências sobre comportamento alimentar e neurodesenvolvimento Seu filho com TDAH parece aceitar apenas os mesmos três ou quatro alimentos...

Ver mais

Como sair do ciclo da compulsão alimentar causada por ansiedade.

Vencendo a compulsão alimentar Você come mesmo sem estar com fome? Sente que perde o controle quando está ansiosa, triste ou estressada? Pode ser que você esteja...

Ver mais